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Nos dias 04, 05 e 06 de abril de 2018, a cidade francesa de Lyon sediou uma imersão com Michel Odent.

Idealizado e organizado por integrantes do IMO, o encontro contou com a participação de cerca de 30 pessoas, entre enfermeiras obstetras, psicólogas, fisioterapeutas e médicos (obstetras, pediatras e médicas de família), que atravessaram o Oceano e toparam o desafio de viajar à França em greve pela oportunidade de mergulhar no universo de Odent – algumas pessoas pela primeira vez e outras, novamente.

Os encontros aconteciam em uma sala aconchegante onde se via o bosque pelas janelas, e onde o grupo reunido em círculo podia desfrutar do conhecimento generosamente compartilhado por Michel Odent, enquanto Heloisa Lessa e Laura Uplinger faziam a ponte entre os idiomas oferecendo a tradução consecutiva. As manhãs de estudo começavam pontualmente às nove e seguiam até às 18 horas, com pausas para degustação da cultura francesa através da gastronomia, pelas mãos do Chef Max e sua companheira e pâtissière Adèle.

Durante esses três dias, Odent discorreu sobre os temas por ele explorados ao longo de décadas de trabalho e estudo minucioso no campo da gestação, parto e nascimento. Começou trazendo um importante questionamento e convite ao desafio: Como podemos contagiar as pessoas ao nosso redor a respeito dessa nossa consciência? Para Odent, isso só pode ser feito se transitarmos entre as diferentes disciplinas da ciência, pensarmos e trabalharmos de forma interdisciplinar.

Os temas trazidos foram muitos, e sempre abordados a partir de diferentes disciplinas; falou em diferentes momentos sobre o fundamental conceito da redução neocortical; apresentou um assunto de seu interesse e estudo atual, que chamou de “Período de transição”: como o corpo da mãe vai se preparando para a redução neocortical e para o processo do parto? Falou sobre a atuação sinérgica da melatonina e ocitocina nesse momento; chamou a atenção para a dificuldade de compreender os processos de transição em tempos de ultra especialização.

Lembrou de características que diferenciam os seres humanos: cérebro grande, e placenta monocoriônica, e discorreu lindamente sobre a placenta, “um órgão de transição”, que tem entre suas funções mediar a fisiologia materna em benefício do feto: modula a glicemia, a fluidez sanguínea, os ácidos graxos; permite a passagem de anticorpos maternos – IgGs… Odent coloca que a principal pergunta para decidir uma indução de parto deveria ser “a placenta está funcionando bem?”, e não apenas considerar a idade gestacional do feto.

Em relação ao nascimento, falou sobre a importância de se respeitar o tempo do bebê, evitando ao máximo o nascimento sem trabalho de parto. Coloca então, como mais importante que “classificar” o parto em cesárea versus parto normal seria pensar em nascimento com trabalho de parto versus nascimento sem trabalho de parto. Sobre a cesárea, coloca que o ideal é que seja em trabalho de parto mas antes de se tornar urgência. Sobre as induções, conta sobre uma conversa que teve com um grupo de chineses a respeito da acupuntura para indução de trabalho de parto, para dizer que não existe forma “natural”, pois se antecipou a chegada do bebê, houve intervenção. O ideal seria sempre deixar o bebê dizer (seja através do trabalho de parto seja através de algum outro sintoma) quando deve ser seu nascimento.

Considerou Hipócrates e sua máxima “primum non nocere”, e refletiu sobre os diagnósticos criados, como por exemplo diabetes gestacional, apresenta contradições e questiona as consequências a longo prazo de tantas intervenções… enquanto intervenções simples, inquestionavelmente benéficas e baratas, como de dieta saudável e atividade física não recebem a importância devida. Compartilhou incômodos em relação às formas de se compreender as “doenças de conflito mãe-feto”, como por exemplo a pré-eclâmpsia, pois entende que os modelos explicativos mais aceitos não dão conta da complexidade dessas doenças. Trouxe o tema da Epigenética; da Disgenia na obstetrícia moderna, que contraria as leis da seleção natural, permitindo a sobrevivência de características genéticas que antes desapareceriam… trouxe muitos e muitos assuntos e pontos-de-vista que desconstroem saberes estabelecidos pelo paradigma (médico) dominante, à luz das diferentes disciplinas.

Muito do que foi abordado está escrito em seus livros (e muito em breve estará em seu próximo livro), mas as letras ganham vida através de sua fala. Sua apresentação intercalava falas livres e reflexões sobre os questionamentos dos participantes. Aparentemente sem preparação prévia formal, mas com conteúdo inesgotável, seus comentários traziam profundos questionamentos e reflexões, e convidavam ao desafio de não julgar; de contagiar os que estão ao nosso redor; de sempre pensar a longo prazo, e antes de procurar respostas, saber elaborar as perguntas…

Merci, au revoir Michel Odent!

“…Ce n’est qu’un au revoir, Michel, ce n’est qu’un au revoir, oui nous nous reverrons, Michel, ce n’est qu’un au revoir!…”